BBB 21 E AS REGRAS DO MERCADO DE STREAMING

Mesmo quem não está acompanhando o programa sabe o que se passa na “casa mais vigiada do Brasil”, e provavelmente esteja sabendo –em tempo quase real— todas as brigas e fofocas que acontecem por lá. Durante a quarentena, o número de assinantes da plataforma Globoplay cresceu e isso mostra que, mais brasileiros tem acesso ao programa 24 horas por dia e essa interação tem influenciado diretamente no jogo e também o entretenimento de maneira definitiva.

Gostando ou não do programa, o fato é que todo mundo já ouviu falar no reality show. Mas o que talvez alguns não saibam é a origem da expressão que dá nome ao programa. Big Brother é a maneira com que George Orwell, autor inglês, descreveu em seu romance 1984, o líder político (Grande Irmão) da Oceania, um estado totalitário fictício.

No livro, Orwell faz uma previsão (de maneira pessimista) de como seria o mundo no ano de 1984. Nessa sociedade, os cidadãos eram vigiados 24 horas por dia por um aparelho chamado telescreen, que não podia ser desligado. Assim já se pode perceber a razão pela qual os idealizadores do programa escolheram a expressão Big Brother. As telas transmitiam propaganda política sem parar e ainda observavam tudo o que acontecia na vida das pessoas. Percebem mais alguma semelhança?

O fato é que o programa assumiu um papel irrevogável de “observador da sociedade”. O Big Brother funciona como uma lâmina de laboratório: você passa, tira um pedaço de tecido e bota lá para ficar observando. Uma vez que o comportamento é observado, o que está sendo consumido e como está sendo feito esse consumo, também passam a ser objetos de estudo.
O reality show estreou na televisão brasileira em janeiro de 2002 e graças ao grande sucesso comercial do programa, a Rede Globo lançou uma segunda edição no mesmo ano. No Brasil, o programa seguiu os passos de sucesso de audiência de países que também exibiram a atração como Inglaterra, Holanda e Portugal, porém, nosso país é responsável por um fenômeno aparentemente singular no mundo: A interação dos fãs –de maneira efetiva – através do streaming.

Com o surgimento das redes sociais, a forma de “consumir” o programa tem mudado. Tem quem acompanhe os acontecimentos da “casa mais vigiada do Brail” por tuítes, tem quem só assiste ao pay-per-view, quem fica sabendo de tudo pelos memes, tem até aqueles que se informam pelos grupos de WhatsApp ou Telegram. Assim, toda a narrativa se dá de maneira fragmentada e diferente para cada um, e a noite, quando enfim é exibido o episódio na TV, ele já não exerce a função de revelar o que se passou durante o dia. Assim, “a mão pesada da edição” que era capaz de definir mocinhas e vilões, migrou então com as narrativas expostas em tempo real para o crivo dos “influenciadores digitais”.

Nada disso nos parece realmente novo, mas o fato relevante aqui é que nessa edição em especial, tudo tem tomado proporções absurdamente maiores. O conteúdo integralmente exposto pelo streaming gera audiência, engajamento e o resultado disso é uma receita de ouro.

No último final de semana, com a saída do participante Lucas Penteado, o programa alcançou recorde de audiência aos domingos dos últimos 10 anos e simultaneamente um mutirão foi formado a fim de se fazer “justiça” e garantir que o carioca levasse o prêmio de R$1,5 milhão. O prêmio que a Rede Globo oferece ao vencedor, em troca de meses de confinamento, agora pode ser dado graças, após 5 dias, graças ao tamanho da repercussão dada através das redes sociais e do acesso a ferramentas de movimentação financeira.

Assim o poder de sedução da estrutura tradicional do entretenimento balança. E se, a partir de agora, em função de uma releitura oportunista do drama psicológico real do qual Lucas foi, sim, vítima, começaremos a ver cada vez mais participantes em busca de uma estratégia de rápida sensibilização social e engajamento dos fãs para cumprir o objetivo de fama e dinheiro, só que a partir de agora, em curto prazo, com uma mobilização mais abrangente de fãs?

É impressionante o “plot twist – jargão usado na dramaturgia para se referir a grandes reviravoltas- que o personagem anti-herói, Lucas Penteado teve em sua participação no programa. A rede Globo que costuma ignorar todos os confinados que decidem abandonar o reality, e ainda tenta sumir com qualquer resquício dele, acolheu Lucas Penteado, apesar de sua saída ter causado um estrago na estrutura do programa.

Estamos diante de uma edição que revisa diversas discussões contemporâneas da sociedade, e que também é um grande reflexo do comportamento do consumidor de conteúdo, justamente em um momento em que a Televisão passa por uma experiência de ressignificação do seu papel. Em contrapartida os patrocinadores precisam aprender a lidar com isso, pois a pressão do público ultrapassa a votação do paredão.

Caminhamos a passos largos para uma nova era, e o BBB 21 se apresenta como um marco para quem faz, vende e consome o mercado de entretenimento no Brasil. O streaming é um caminho sem volta e o Big Brother Brasil, mais uma vez dita – ou se anteveem- as regras do jogo.

Adênia Batista

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