A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DOS 30 – ADÊNIA BATISTA

Devo confessar que nunca me prendi a essa coisa de crise. Inclusive acreditei durante anos, que seria capaz de passar pela vida de forma razoavelmente tranquila. Como boa virginiana que sou, achei que administraria minhas angústias sem dramas que acabassem levando minhas emoções a um colapso. Porém a famosa crise dos 30 chegou, bagunçando todas as minhas certezas.

Posso afirmar que não me sinto deprimida, infeliz, tão pouco me arrependo das escolhas que fiz até aqui. Muito pelo contrário. Mas essa coisa de estar na casa dos 30 vem martelando minha cabeça de forma insistente há meses. Me sinto muito bem, acho que está tudo muito bem, mas começou a bater uma ansiedade estranha, uma voz inconveniente (entoada pela doce voz de Sandy) que berra: “você está velha para ser jovem Adênia”.

Quando me falavam em crise dos 30, eu tinha convicção de que isso só batia para quem sentia um vazio muito profundo, logo não me atingiria. Mas percebi que não é preciso estar mal na carreira, me sentindo só, um pouco fora de forma, ou algo do tipo. É claro que esses fatores podem, obviamente, acentuar as angústias, mas mesmo aqueles que estão bem com o próprio corpo e com a profissão, sentem o fantasma dos 30.

Em sua obra, “A mulher de 30 anos”, Honoré de Balzac fez um belo serviço à humanidade. Em seu livro escrito no século 19, o autor francês deixa explícito o vazio de aparências em que vivia a maior parte da sociedade europeia, especialmente as mulheres amarguradas que estavam presas em um casamento arranjado.

Eu não conhecia o livro até que em setembro, quando completei 30 anos, amigos e conhecidos me parabenizando por meu aniversário, me chamavam de balzaquiana. Após ler a obra, entendi que apesar de ser uma magnifica crítica social, o termo “balzaquiana” foi distorcido no contexto. Entendi que há mulheres que se enquadram no perfil de Julie d’Aiglemont, a personagem principal da trama. Mas para mim essa expressão soa até como ofensa.

Resumindo (e dando spoiler da história)  o romance de  Balzac começa quando Julie rejeita os conselhos de seu pai e decide se casar com um rico e respeitado general da tropa de Napoleão Bonaparte, mesmo não o amando.

Algum tempo depois, ela se apaixona por um médico, que morre sem se tornar seu amante, pois sequer contato físico houve entre eles.

Covardemente Julie não rompe o casamento para viver um amor verdadeiro.
Assim que completa 30 anos, a personagem se apaixona por um jovem e, ao longo de anos, mantém um relacionamento extraconjugal com ele.

Já por volta de seus 50 anos de idade e viúva, a balzaquiana opta por continuar abdicando de sua vida, mas de uma nova forma: agora, para viver em função dos caprichos da filha. Ao fim, Julie morre e o livro leva a crer que seu fim foi de desgosto. Enfim a pergunta que não quer calar: Qual é a virtude de ser balzaquiana?

Julie d’Aiglemont representa todo o retrocesso e atraso contra os ideais que acredito. Julie é a antítese da plenitude. É uma dinamite entre os tijolinhos de empoderamento que tentamos arduamente levantar dia após dia. É a maior representação de omissão e negligência femininas. Julie é uma fraude.

Ao fim da leitura, torno a me questionar: E você Adênia, você é uma fraude?

Nos últimos meses tenho sentido meu corpo se comportar de forma estranha: dores nas costas, quilos que chegam sem avisar, pregas no canto dos olhos, um fio branco me apareceu na virada do ano, azia e má digestão. As noites de sono mudam (agora de maneira mais grave do que quando fui mãe aos 20). Aquela coisa de cair na cama, adormecer automaticamente e só acordar no dia seguinte começa a se tornar rara. Dificuldade para adormecer quando deita, dificuldade para adormecer depois de um xixi de madrugada, aquele sono sagrado do meio dia no fim de semana, se foi junto com a minha disposição para paquerar. Sim, porque é inevitável a preguiça de socializar.

O ápice da angustia é quando vem a sensação de que seus picos de liberdade já passaram. A época de errar já passou, a época de fazer grandes bobagens já passou, a época de curtir a solteirice, de tomar porre na terça-feira – não que eu tenha sido adepta, mas de repente eu quis fazer e me senti velha. Na verdade, não há nada que nos impeça de continuar nessa vida, mas aquela voz sussurra no nosso ouvido “escuta, você já tem 30 anos, talvez essa roupa não seja adequada…”.

O fato é que tenho amigas de 30 que afirmam “o meu espírito ainda tem 18 anos”. Mas para todo mundo bate a sensação de que o tempo passa mais rápido do que deveria. E começamos a sentir que ficaram muitas pendências desde os 20 e que talvez não tenhamos mais tempo para concretizá-las.

Da minha lista de pendências posso ressaltar: minha barriga não ficou dura, eu não fui para o México, eu nunca mandei um chefe para o inferno (vontade e oportunidade não faltaram), eu não tive um fusca, nem um carro zero, eu não saí com aquele carinha por quem eu era apaixonada, não fiz cobertura de nenhuma missão humanitária no Nordeste, não pintei meu cabelo de azul, não acampei na praia, não tive nenhuma experiência sexual em lugar inusitado. Dá para fazer tudo isso ainda? Dá. Mas vou fazer? Provavelmente não. Aí eu sinto que talvez o tempo não seja mais meu aliado. E talvez eu me acovarde como Julie.

Sim, eu sei que apesar de todas essas questões, está tudo bem. Sei que não estou velha, que há muita vida e muita coisa boa pela frente. Mas não consigo me despedir da minha juventude sem sofrer um pouco.  Como bem disse a Sandy, tenho sonhos adolescentes, mas a costas doem. E esses empasses entre meu corpo e calendário, a alma e a cabeça, não são lá muito fáceis de resolver. Sou jovem pra ser velha, e velha pra ser jovem. Mas apesar de todas as agruras, vou tentando não me encaixar nos padrões de uma balzaquiana.

Adênia Batista

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