MULHERES NA POLÍTICA: A TRAJETÓRIA DO ESPAÇO PRIVADO AO PÚBLICO – POR ADÊNIA BATISTA

Estamos as vésperas de mais um 8 de março, e o nosso PAPO DE QUINTA, não poderia deixar de tratar dessa data tão importante, não só para nós mulheres, como para toda a sociedade. E esse é sem dúvidas, o momento propício para destacarmos o nosso papel social, cultural e político.

Neste dia, aproveitamos para lembrar que a data não foi criada apenas para comemorarmos, mas para celebrarmos as justas conquistas femininas, valorizando nossa luta e avanços, em um debate amplo onde discutimos a importância da mulher para o desenvolvimento social e econômico mundial.

A partir da ótica política, pensar no papel desempenhado pelas mulheres na sociedade brasileira torna-se um exercício interessante, principalmente quando consideramos que a nossa sociedade foi construída sob a égide do machismo e do patriarcalismo, onde o homem sempre ocupou o espaço público e a mulher, o privado.

É certo que o espaço político vem mudando, e isso se dá a partir da participação das mulheres na vida pública, seja como eleitoras, ou como candidatas a ocupar esses cargos e mesmo que essa mudança ainda seja tímida, a presença cada vez maior de postulantes é algo fundamental para o fortalecimento da democracia, afinal, a representatividade feminina é extremamente necessária quando pensamos nas lutas pelos direitos das mulheres em um contexto no qual, como se sabe, ainda há muito preconceito, exclusão e violência.

Nós, mulheres, assistimos e vivenciamos a participação política como uma luta de resistência. O fato de nos tornarmos autoras de nossas próprias histórias, faz com que não queiramos entregar nosso destino nas mãos de representantes que não nos representa. Por isso, se faz de extrema importância nossa organização em movimentos sociais e na política.

Mulheres, (principalmente a mulher negra) somos maioria de 70 % no trabalho informal. Este dado escancara o grande problema que interdita a nossa participação política. Todas as pesquisas apontam mesmo em movimentos sociais e em conselhos, que quanto mais longe de casa está o espaço de participação, por exemplo, no plano estadual e nacional, mais reduzida é a participação das mulheres. Isso levando em consideração o fato de que ainda somos responsabilizadas pelos trabalhos domésticos e cuidados da família.

Para os homens, a realidade é completamente diferente. Por terem somente uma jornada de trabalho, ficam livres para se dedicar a uma carreira política, o que tem impacto direto na sub-representação feminina. Portanto, em boa parte dos casos, as poucas mulheres que atuam na política possuem menos encargos domésticos, por conta de seu estado civil ou posição social e, sobretudo, por contarem com a assistência de outra mulher para administrar o trabalho doméstico e do cuidado da família.

No Brasil, as mulheres compõem a maioria do eleitorado (pouco mais de 51,7% do total, segundo o governo federal) isso, é um indício de que há a necessidade de atenção para essa parcela considerável da população, ainda mais se tratando de uma sociedade que busca se fortalecer enquanto democracia. Essa por sua vez, já há algum tempo vem se consolidando, e vale ressaltar a participação de forma efetiva das mulheres nesse processo.

As eleições municipais de 2020 registraram um recorde de candidaturas femininas, o total de mulheres eleitas, reeleitas também cresceu. Dados oficiais do TSE mostram que para 12,2% das prefeituras foram eleitas mulheres. Na eleição de 2016 esse número foi de 11,57%.

A participação feminina também aumentou de forma significativa nas Câmaras Municipais. Cerca de 9 mil mulheres foram eleitas vereadoras em todo o país, o que representa 16% do total.  No município de Jaboticabal, interior de São Paulo, esse aumento foi de 1 cadeira, na legislação 2017/2020, para 4 cadeiras ocupadas por mulheres.

Para a vereadora Dra. Andréa Delegada (PSC) campeã dos votos na cidade, esse resultado evidencia a necessidade das mulheres terem representantes femininas.

“Trabalho há 30 anos na Delegacia de Defesa da Mulher, os casos de violência contra as mulheres fazem parte do meu dia-a-dia. Eu conheço a realidade da mulher que não sai de um relacionamento abusivo por não ter apoio da família, por não ter trabalho. Muita coisa foi feita em prol dessas mulheres, mas eu sinto que dentro do âmbito do município há ações que podem ser feitas. Eu encaro com muita responsabilidade a missão de representar essas mulheres na política. Esse resultado em Jaboticabal é fruto de um trabalho árduo de dar voz a elas.”

Paula Oliveira Faria (PT), foi a segunda mais bem votada no pleito de 2020, sendo eleita com 676 votos. A professora de 32 anos ressalta a importância que esse cenário tem para a autonomia feminina na sociedade.

“Ser mulher sempre imprimiu em mim a necessidade de lutar. Desde cedo enxerguei as injustiças do mundo e me posicionei diante delas, no enfrentamento. Os espaços de poder onde decidem sobre a nossa vida não estão ocupados por nós. Precisamos unir forças e fazer crescer o movimento. Ser uma professora tatuada e ser inspiração, pra mim é simplesmente incrível. Sou grata por ver mulheres fortes se reconhecerem em mim. Quero que toda menina que veja uma mulher jovem, professora, mãe e militante chegando à um espaço de poder como o legislativo se inspire e saiba que também pode alcançar. Representatividade é importante, mas quero vê-las ao meu lado, lutando juntas para avançarmos cada dia mais. Agradeço a todas as mulheres que lutaram bravamente para conquistarmos os direitos que temos hoje e chamo todas a permanecermos firmes na luta, até que todas sejamos livres!”

A vereadora eleita Val Barbieri (PRTB), acredita que a partir dos resultados do último pleito e da representatividade feminina ao longo dos próximos quatro anos no município, nas eleições futuras esse número deve aumentar.

“Esse avanço é significativo para o movimento de representatividade da mulher na vida política, mas é apenas o início. A cada eleição a tendência é que esse número aumente porque as mulheres estão entendendo que apenas com mais delas ocupando cargos públicos, é que suas demandas serão atendidas. O nosso olhar sensível para a causa animal, para ações inclusivas, contribui muito para o nosso protagonismo na sociedade.”

Outro marco histórico para a cidade foi o fato de ter pela primeira vez, uma mulher na presidência. Renata Assirati (PSC) foi eleita por unanimidade, presidente da Câmara Municipal da cidade.  Para ela, ocupar o cargo é fruto de muito trabalho e dedicação.

“Uma vitória ter sido eleita vereadora na minha Jaboticabal, e ainda ser presenteada como Presidente, é uma honra, e uma responsabilidade enorme. Estou dia a dia em construção, minha vida sempre foi pautada dessa forma, muito trabalho realizado com muita determinação.  Encaro a política em minha vida como uma forma de estar sempre buscando mudanças, melhorias para toda a população.  Então sendo Presidente de uma Casa de Leis, junto de nobres colegas, traz essa oportunidade de realizarmos muitas coisas. Digo a todas as mulheres, que corram atrás do que acreditam, lutem! Haverá dias bons e outros nem tanto, mas o importante é tentar. No final terá experiências, vivências inesquecíveis. E isso ninguém pode tirar! “

Enfim, se de um lado há dinâmicas que reproduzem as desigualdades, de outro, cresce, como disse no início desse texto, a percepção de que uma política sem mulheres não pode ser democrática. E que um país que as trata com violência e lhes recusa direitos não pode ser justo e democrático. É por isso que, tão fundamental quanto apoiar a eleição de mulheres, é analisar o grau de compromisso de uma candidatura com a igualdade de gênero. Afinal, estamos falando da possibilidade não apenas de que mulheres se elejam, mas de que tenhamos representantes comprometidos com a construção de um mundo melhor para todas as mulheres.

 

Adênia Batista

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