MARIA: EXEMPLO DE CATEQUESE FAMILIAR – TATIANE HUNCH CASTILHO ANDRADE

Muitas vezes ouvimos por aí: “Mas como é possível uma virgem conceber sem pecado? Como é possível um marido aceitar uma noiva já grávida? Como é possível uma mãe ser chamada pelo filho de ‘mulher’? Como é possível um ‘pai’ não aparecer na história de um filho?”

E eu lhes pergunto: Como é possível nós, seres humanos e falhos, julgarmos e condenarmos ainda com tanta assertividade? Como o conhecimento científico pode pôr à prova a fé no milagre divino? Ou as pessoas só acreditam em algo quando as beneficia e, quando lhes é alheio, simplesmente não existe milagre, nem amor, nem compaixão? Será que nossas experiências de vida já não nos mostraram que “o essencial é invisível aos olhos”? (Saint-Exupéry) Ou que “há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia”? (Shakespeare)

Talvez a resposta seja um outro clichê: é muito fácil julgar, quando se está do lado de fora da situação, tudo parece muito claro, preto no branco. Porém o mundo, a vida, não é assim. Existem incontáveis nuances entre os extremos…

Na realidade, em nossas famílias convivemos com personalidades tão diferentes vindas de uma mesma criação, ou não. Marido e esposa, que vêm de formações diferentes, aprendem a se amar, a aceitar o outro com aquilo que o torna único e, consequentemente, especial e insubstituível. Pai e mãe aprendem a amar os filhos, cada qual com suas especificidades, qualidades e defeitos. Filhos aprendem a amar, a respeitar e a seguir os exemplos dos pais, ainda que se imaginem tão opostos a eles e digam “eu, serei diferente com meus filhos e nunca farei isso com eles; vou ouvi-los mais e respeitar suas vontades”. Ledo engano! Filhos tornam-se pais, maridos e esposas, avós e tios, e ciclo da vida repete-se.

A família de Jesus era assim. Simples e verdadeira, como a nossa.

MARIA, uma mãe humana, temente, bondosa, que embora amedrontada pelo mistério do milagre divino, aceitou a vontade de Deus dizendo sim ao anjo anunciador.

JOSÉ, um pai humano, trabalhador, honesto, inseguro em aceitar o desconhecido, preocupado com o olhar e o julgamento dos seus, criado em uma sociedade machista e determinista; mas que, posto oniricamente em presença do anjo, também sentiu o chamado do amor, e aceitou em seu coração a vontade divina.

JESUS, um filho amoroso, respeitoso e iluminado, verdadeiro o milagre encarnado, que aprendeu com os pais terrenos o sentido de uma família: aceitar as diferenças e aquilo não pode ser mudado, apoiar e proteger uns aos outros, e, acima de tudo, amar e aceitar incondicionalmente o amor e os desígnios do PAI, a exemplo de seus pais.

E quem foi a primeira a resignar-se aos projetos de Deus? Maria, de Nazaré, mãe de Jesus e nossa mãe.

Aquela que ainda em vida, grávida, serviu a sua prima Isabel. Convidada, interveio pelos amigos nas bodas de Caná. Mãe, cumpriu todas as suas obrigações religiosas e aceitou os amigos do filho como seus próprios filhos. Assunta aos céus, intercedeu e intercede por nós junto ao Santíssimo Cristo na Trindade Divina. Catequista, manteve-se fiel e obediente às palavras de Deus, mesmo sabendo que iria sofre e chorar, como nenhuma outra mãe, desde a sua concepção, seria perseguida e estrangeira em sua própria terra. Chamada ‘mulher’, por sua natureza humana, contudo ascendeu aos céus pelas mãos, pela glória de seu filho Jesus; e de lá, continuou catequizando os homens, sob vários nomes, por meio de suas inúmeras aparições àqueles que creem, em todos os cantos do mundo, e também trazem seus corações abertos ao amor divino, a ouvi-lo e a espalhar a Palavra entre os cristãos.

Assim como Maria, nós também famílias cristãs, pais e mães, deveríamos ser os primeiros catequistas de nossos filhos, ensinando-lhes, também aos netos e afilhados em Cristo, pelo exemplo concreto de amor, compaixão, misericórdia, doçura, fraternidade e bondade, como rezar e orar, agradecer e pedir, respeitar e partilhar, amar o diferente e a natureza humana, passível de falhas, mas também de maravilhosas melhoras e crescentes aprendizados.

Ensinamento que começa pela participação nas missas, pois poupar as crianças do cansaço de ficarem quietas e respeitarem o silêncio, é na verdade privá-las do exemplo do respeito e da oração, do silêncio e da contemplação religiosa a esse mistério acima de nossa reflexão racional.

Ensinar-lhes o canto, oração em sua forma mais sublime e lúdica, pudica e fervorosa, que faz com que reflitamos e guardemos tantos ensinamentos de maneira implícita e constante.

Apresentar-lhes as orações mais simples, como a do Anjo da Guarda, do Pai-Nosso e da Ave-Maria, ou o costume de rezar quando acordamos, dormimos ou comemos… Pois isso nos prontifica a aceitarmos as diferenças de vocabulário, historicamente construídas, bem como o costume de ler a Bíblia com mais carinho e atenção, com um melhor entendimento metafórico de suas parábolas e dos significados, e abre à possibilidade futura de aprender orações mais complexas, como a Salve Rainha e o Creio, com mais tranquilidade.

Se não, como requerermos que nossas crianças e jovens sigam no caminho da religião e do bem, acreditem naquilo que nos é humanamente difícil aceitar, ou não tenham um pensamento egoísta e maniqueísta ao ouvir uma parábola como a do filho pródigo – que prefiro chamar, como aprendi certo dia, de “parábola do Pai Amoroso” – aquele que perdoa acima de tudo, e se alegra com a volta de um filho perdido, tal qual qualquer um de nós faria? Como pedir-lhes que não achem que o pecado seja relativo? Ou não questionem o que nós mesmos já questionamos outrora?

Sem o devido direcionamento familiar, a dificuldade encontrada em confrontar o invisível e o abstrato é muito maior, quase um abismo entre o humano e o divino.

Será que delegar essa função à Igreja e aos catequistas é a solução? Como muitos pais fazem em relação à escola, à educação, ao lazer e às atividades físicas dos filhos? Duvido que a resposta racional ou emocionalmente direcione-se ao sim.

Realmente acredito que o caminho seja o exemplo familiar. Sejamos mais pais, mães, irmãos, avós, tios. Sejamos mais famílias dialogicamente pautadas no exemplo da Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Cada qual com seu papel fundamental de conciliar o antigo desejo de ser diferente, com o estar sendo empiricamente diferentes pais, mães e filhos, no amor, na paz e na fé, a única capaz de compreender o inacessível à razão, porém sensível ao coração.

 

Tatiane Hunch Castilho Andrade

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