#Relembre o caso do jornalista Tim Lopes, morto há 20 anos

Rio de Janeiro - A irmã do jornalista Tim Lopes, Tânia Lopes durante ato na praia de Copacabana, em memória aos 15 anos da morte de seu irmão (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Nesta quinta-feira (2), a morte do repórter Tim Lopes completa 20 anos. Ele foi assassinado quando fazia uma reportagem sobre abuso de menores e tráfico de drogas no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Tim foi capturado, torturado e executado por traficantes. A confirmação veio após uma semana do desaparecimento.

Passadas duas décadas, dois dos acusados morreram, entre eles, o traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, apontado como chefe do grupo. Outros quatro criminosos estão em liberdade e um está preso.

Tim Lopes tinha mais de 30 anos de carreira quando foi torturado e assassinado, em uma trajetória sempre marcada por uma obsessão: combater a violência, as injustiças e as desigualdades sociais por meio do jornalismo.

Em suas matérias, o repórter assumiu disfarces para denunciar o que estava errado. Ele foi pedreiro para mostrar a dura vida dos canteiros de obras. Fingiu ser dependente químico para revelar irregularidades em clínicas de tratamento. Chegou até a se vestir de Papai Noel para falar do Natal de crianças que não tinham a esperança de receber a visita do Bom Velhinho.

Até hoje, o julgamento dos responsáveis pelo crime é visto como um dos maiores processos do Judiciário fluminense. O processo foi concluído com 13 volumes.

Na manhã desta quinta, o jornalista Bruno Quintella, filho de Tim, fez uma homenagem ao pai em sua rede social. “Metade da minha vida sem você por perto, sem seu abraço, sem ouvir sua gargalhada, sem trocar ideias, sem ir aos jogos do Vasco. É uma saudade que não passa nunca. É uma dor que não vai acabar, mas que tentamos a cada ano — minha família, eu, seus amigos — a lidar com ela”.

Tim Lopes, durante reportagem — Foto: Reprodução

Tim Lopes, durante reportagem — Foto: Reprodução

A situação dos condenados

  • Elias Pereira da Silva (Elias Maluco) – Morto em 2020 em uma cela do presídio federal de Catanduvas (PR)
  • Claudino dos Santos Coelho (Xuxa) – Morto em 2013 numa troca de tiros com o Bope.
  • Elizeu Felício de Souza (Zeu) – Está preso no Instituto Penal Vicente Piragibe.
  • Reinaldo Amaral de Jesus (Cadê) – Está em liberdade desde 1º de dezembro de 2017.
  • Fernando Satyro da Silva, o Frei – Está em liberdade de 22 de março de 2017
  • Cláudio Orlando do Nascimento, o Ratinho – Em liberdade desde 17 de dezembro de 2020.
  • Ângelo Ferreira da Silva, Primo – É considerado foragido por crime de roubo desde 2013.

Processo histórico

g1 conversou com pessoas que estiveram envolvidas nas investigações e condenação dos traficantes responsáveis pelo crime.

Elias Maluco foi preso em setembro de 2002, pouco mais de três meses após comandar a ação de criminosos contra Tim Lopes.

“A gravidade do caso e a forma brutal e desumana como o Tim foi assassinado dá a dimensão do que o processo foi. O jornalista era uma pessoa muito querida e que sofreu um tratamento desumano. Uma violência extrema e que não tem como explicar o que fizeram”, conta o desembargador Fábio Uchôa, então titular do 1º Tribunal do Júri.

O júri que condenou Elias foi formado por cinco mulheres e dois homens. Como o processo foi desmembrado, só o julgamento de Elias Maluco durou cerca de 16h.

“Esse julgamento foi muito tenso mas que trouxe novidades que hoje são usuais como o uso de DNA na identificação de um corpo ou a ação da inteligência policial para levar à prisão do Elias Maluco. Ele foi preso sem que se disparasse um tiro. A repercussão do caso também trouxe para a sociedade o que já ouvíamos em julgamentos mas que o grande público pouco conhecia como o terror praticado pelo tráfico nessas comunidades”, diz a procuradora Patrícia Glioche, uma das duas promotoras que fez o júri do caso.

A investigação

Por três meses, a Delegacia de Repressão à Entorpecentes (DRE), da Polícia Civil do Rio esteve mobilizada para encontrar os criminosos responsáveis pela morte do jornalista Tim Lopes.

Durante o período, não faltaram informações falsas, enviadas à delegacia, como a de que Elias Maluco estava escondido em Crateús, no Ceará, vestido de mulher.

A informação foi considerada falsa porque neste momento a polícia já sabia que o traficante estava escondido no interior do Complexo do Alemão e o telefone que utilizava era monitorado pelos investigadores.

Elias Maluco foi encontrado morto em 22 de setembro de 2020, em sua cela no presídio federal de Catanduvas, no interior do Paraná. O corpo tinha marcas de enforcamento.

Elias Maluco, acusado pelo assassinato do jornalista Tim Lopes. — Foto: Reprodução/ TV Globo

Elias Maluco, acusado pelo assassinato do jornalista Tim Lopes. — Foto: Reprodução/ TV Globo

Relembre os momentos

No dia 2 de junho de 2002, Tim Lopes, de 51 anos de idade, deixou seu apartamento em uma zona de classe média do bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ele estava indo para a favela da Vila Cruzeiro depois de primeiro parar em seu escritório na Rede Globo, onde ele era produtor de transmissão desde 1996. César Sebra, o homem que foi chefe de Lopes por seis anos na Rede Globo, lembrou: “A maioria dos jornalistas que trabalham nos escritórios da Globo são de classe média. Apenas algumas pessoas como Tim moravam nas favelas”.

Lopes ouviu dizer que uma gangue de traficantes de drogas que controlava a Vila Cruzeiro estava dando um baile funk naquela noite. Lopes foi avisado pelos moradores locais da área que os traficantes estavam promovendo a prostituição infantil no baile na Vila Cruzeiro.

Dias antes dessa noite, Lopes confidenciou aos colegas que estava se sentindo cansado e queria dar um tempo da agitação e violência da cidade e encontrar um retiro rural em algum lugar onde pudesse se recuperar. “Quanto mais fundo na selva, melhor”, disse ele. Sua consciência de drogas e crime que assola a cidade e a falta de serviços sociais para os jovens lidarem com esses problemas pareciam esgotar suas energias. As comunidades pobres do Rio foram negligenciadas por décadas e foram consideradas fora do controle do Estado. Preenchendo esse vácuo de poder estavam jovens traficantes de drogas, que patrulhavam as favelas com armas automáticas. Além da venda de drogas, em certas favelas, os traficantes exploravam sexualmente menores da comunidade em seus bailes funks, às vezes forçando as meninas a fazerem sexo em público contra uma parede nesses eventos.

Os moradores disseram a Lopes que as meninas da comunidade local que não participaram do baile funk eram alvo de represálias. Como os residentes não podiam ir à polícia para obter reparação, eles procuraram ajuda em Tim Lopes. Nassif Elias Sobrinho, então presidente do sindicato de jornalistas do Rio, relembrou: “Tim Lopes foi chamado porque não havia ninguém para ouvir seus problemas. A comunidade contou muitas vezes à polícia e nada foi feito”.

Depois de sair do escritório naquela tarde nos estúdios de televisão da Rede Globo, onde deixou o “celular, a carteira e a camisa social”, Lopes foi ao Shopping Penha, onde montou uma câmera escondida. Ele estava usando uma micro-câmera escondida dentro de um pequeno pacote em sua cintura. Um dos propósitos deste baile funk era atrair multidões de outros bairros, então a presença de Lopes não o tornaria um alvo em si. No entanto, o relatório “Feirão das Drogas” do ano anterior havia recebido muita atenção e levado a inúmeras detenções. Além disso, depois que Lopes e sua equipe receberam o Prêmio Esso, sua imagem tornou-se posteriormente popular por todo o Rio.

Sequestro

Na tarde de 2 de junho de 2002, Lopes decidiu filmar em uma boca de fumo ao longo da Rua Oito, na favela da Vila Cruzeiro. O objetivo de Lopes era obter imagens de drogas e armas, como fez em 2001 na favela da Grota, no Complexo do Alemão. Mais tarde soube-se que antes desta noite, Lopes havia filmado recentemente na Vila Cruzeiro três vezes diferentes.

Dentro da Vila Cruzeiro, Lopes foi a um bar e comprou uma cerveja, depois atravessou a rua e ficou na calçada enquanto filmava traficantes armados passando de motocicleta. Lopes foi abordado por dois membros da facção criminosa que controlava a Vila Cruzeiro e a maior parte do Complexo do Alemão (frequentemente chamado de “Complexo”), André da Cruz Barbosa e Maurício de Lima Matias. Como é comum no submundo do crime, os traficantes eram conhecidos por seus apelidos: André Capeta (André Devil) e Boizinho (Boi Pequeno). Um menino se aproximou de Lopes quando ele estava no bar, e ele não sabia que o menino estava procurando um traficante de drogas. Os traficantes ficaram desconfiados quando alguém notou uma pequena luz vindo da mochila na cintura de Lopes, onde sua câmera estava escondida, e relatou isso a um dos traficantes armados.

Ao ser confrontado, Lopes afirmou que era jornalista da Rede Globo. Eles pediram suas credenciais de jornalista, o que Lopes não carregava quando trabalhava disfarçado. Lopes foi subsequentemente espancado no local. Usando uma rádio da Nextel, os traficantes chamavam o chefe do narcotráfico, Elias Pereira da Silva, conhecido por seu apelido, Elias Maluco, na sede da facção da favela da Grota, no Complexo do Alemão, para instruções. Eles foram instruídos a esperar por um carro que os levasse para transportar Lopes da Vila Cruzeiro pelas colinas até o topo da Grota, no Complexo do Alemão, onde Elias Maluco estava esperando pelo que ele via como o “troféu” capturado. Antes de colocá-lo no porta-malas de um Fiat Palio roubado, os traficantes atiraram em Lopes em seus pés ou pernas e amarraram as mãos atrás das costas.

Assassinato

Os traficantes levaram Lopes por uma estrada sinuosa de terra batida que levava a favela da Vila Cruzeiro (que fica na Penha) até a rede de favelas do Complexo do Alemão, uma distância de cerca de 5 quilômetros em estradas sinuosas através de terrenos montanhosos (sendo também a mesma rota usada por grupos de criminosos em fuga brandindo fuzis de assalto quando as unidades policiais militares e os militares brasileiros invadiram a Vila Cruzeiro durante Atos de violência organizada no Rio de Janeiro em 2010). Ao chegar à Favela da Grota (que era a sede da facção criminosa que controlava o Complexo), Tim Lopes foi recebido por Elias Maluco. Depois que tiraram Lopes da mala do carro, ele foi reconhecido por um dos traficantes, Cláudio Orlando do Nascimento, conhecido pelo apelido de Ratinho. Lopes havia filmado Ratinho na rua da Grota no ano anterior, enquanto Ratinho estava limpando um fuzil automático, que foi ao ar como parte do relatório “Feirão das Drogas”. Também estavam presentes outros traficantes, chamados Xuxa e Zeu.

Os traficantes amarraram Lopes a uma árvore. Ratinho estava convencido de que este era o mesmo “Tim Lopes” que fez o relato da televisão em 2001, resultando em sua prisão e interferência nos lucros das drogas da gangue. Por isso, ele insistiu que Lopes tinha que morrer. Lopes implorou por sua vida, mas lhe disseram que ele morreria. Um dos traficantes que estava presente, Frei, disse mais tarde aos detetives que havia mais de vinte pessoas presentes no local, nove dos quais participaram do assassinato de Lopes.

Em um “ritual macabro” de violência, eles queimaram os olhos de Lopes com um cigarro e Elias Maluco, usando uma espada de samurai ou uma espada do tipo “Ninja-tō”, cortou as mãos, braços e pernas de Lopes enquanto ele ainda estava vivo. Os outros traficantes, incluindo André Capeta e Ratinho, também participaram da tortura. A polícia foi posteriormente informada de que havia sangue em vários dos traficantes que estavam reunidos ao redor. Lopes foi colocado dentro de vários pneus, coberto de combustível diesel e incendiado. Esse processo, que se tornou institucionalizado entre traficantes nas favelas mais violentas do Rio na época, era chamado de micro-ondas.

Assista o vídeo de quando o Jornal Nacional fez uma homenagem:

Reprodução/ g1 e Wikipedia

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