Jaboticabalense premiada internacionalmente, coorderna ONG nos EUA que busca dar voz a minorias na internet

A brasileira Adele Mara Godoy Vrana, de Jaboticabal (SP), aluna da primeira turma de relações internacionais da Unesp de Franca (SP), hoje mora na Califórnia (EUA) e atua como co-diretora em uma Organização Não Governamental (ONG) que busca permitir que minorias tenham mais espaço na criação de conteúdos informativos em plataformas digitais.

Premiada internacionalmente com um projeto que visa facilitar o acesso à informação em países em desenvolvimento e fundadora da ‘Whose Knowledge?’ (‘De quem é o conhecimento?’, em português), Adele foi a primeira pessoa da família dela a cursar o ensino superior em uma universidade pública, fruto da dedicação dela e do foco da mãe.

“As pessoas da minha família não tiveram condições de cursar uma universidade, então esse sempre foi o foco da minha mãe, uma mulher que trabalhou desde os 8 anos em casas de família cozinhando. Ela se esforçou muito para que eu e meu irmão tivéssemos a oportunidade de sermos educados, porque ela via a educação como uma maneira de transformar nossas vidas”, disse Adele.

Adele Vrana foi a primeira pessoa de sua família a ingressar em uma universidade pública — Foto: Adele Vrana/Arquivo Pessoal

Adele Vrana foi a primeira pessoa de sua família a ingressar em uma universidade pública — Foto: Adele Vrana/Arquivo Pessoal

‘Negra, pobre, do interior em uma universidade pública’

Adele queria ser advogada, mas a inscrição no vestibular mudou em cima da hora ao descobrir que o campus da Unesp em Franca havia inaugurado, em 2002, o curso de relações internacionais, uma área até então desconhecida por ela.

O campus era pequeno e, segundo Adele, essa característica foi essencial para que as possibilidades de interação com estudantes de outros cursos se tornassem grandes, inclusive na participação de atividades de extensão, como iniciação científica.

Além disso, Adele teve chance de conhecer e conviver com grupos sociais em Franca, como o Movimento Negro, do qual ela se identificou.

“Era uma área nova que estava se desenvolvendo no Brasil. Foi essa decisão inusitada de mudar a minha inscrição para Relações Internacionais, ao invés de direito, que me fez ter essa surpresa de passar e celebrar a entrada de uma menina negra, pobre e do interior em uma universidade pública como a Unesp”, contou.

Mudança de rota

Logo que terminou a graduação, Adele fez mestrado em ciência política na USP, mas, ao concluir, viu que seu lugar não seria na academia e decidiu agir de forma mais direta na comunidade.

De Franca, a internacionalista foi para São Paulo (SP), onde atuou no Instituto ABAD, ONG da Associação Brasileira dos Atacadistas e Distribuidores. Na instituição, foi responsável por trabalhar especificamente com mulheres em comunidades locais.

Enquanto trabalhou na capital, conheceu o marido, que depois de alguns anos foi transferido para trabalhar nos Estados Unidos.

A mudança do casal foi em 2010. Em São Francisco, na Califórnia, a trajetória de Adele começou a mudar ao ser contratada pela Fundação Wikimedia, organização que cuida da Wikipedia, onde trabalhou até 2015.

“Apesar de ter feito RI, nunca imaginei sair do país. Lembro que quando eu cheguei aqui nos EUA, eu mal falava inglês, porque nunca tive oportunidade de estudar. Então foi difícil se adaptar a uma nova cultura, uma nova língua”, contou.

Reconhecimento e premiação

O último trabalho na Wikimedia é considerado por ela o de grande destaque. A menina do interior paulista virou diretora de parcerias estratégicas. A função dela era falar com grandes empresas com o objetivo de criar meios para que a Wikipedia chegasse de forma mais acessível a países em desenvolvimento.

“Eu negociava com empresas telefônicas para que o acesso ao conhecimento, ou seja, o acesso à Wikipedia fosse feito sem cobrança de taxas. Assim, você poderia ler o Wikipedia o tanto que quisesse e isso não seria reduzido do seu plano de dados”, explicou.

O projeto rendeu para ela e sua equipe, em 2015, o Prêmio Erasmus, título concedido a quem contribui com a sociedade e as artes na Europa e no mundo, organizado por uma fundação sem fins lucrativos da Holanda.

Essa imersão no mundo da tecnologia fez com que Adele começasse a olhar para a internet de outra forma. Segundo ela, nesse período surgiram questionamentos sobre quem mais estava produzindo os conteúdos online.

“Eu lembro que tive acesso a um computador quando já tinha passado da adolescência, então foi muito difícil entender o papel da tecnologia. E aí vindo para cá e tendo esse crescimento dentro da Fundação, me fez olhar para a produção na internet e notar que não havia pessoas como eu, que são do Sul global, pessoas negras, liderando e criando o que a gente consome online”, explicou.

Prêmio Erasmus 2015, concedido à comunidade Wikipedia, graças ao trabalho de Adele e sua equipe — Foto: John Turing/Wikimedia Commons

Prêmio Erasmus 2015, concedido à comunidade Wikipedia, graças ao trabalho de Adele e sua equipe — Foto: John Turing/Wikimedia Commons

Falta de representatividade

Adele identificou, com as reflexões, que não se sentia representada nos conteúdo produzido online, nem por quem era responsável pela criação das informações.

Com as ativistas Anasuya Sengupta, da Índia, e Siko Bouterse, dos Estados Unidos, fundou, em 2016, a ONG ‘Whose Knowlegde?’ (‘De quem é o conhecimento?’).

“Se a gente olhar mesmo para a própria Wikipedia, por exemplo, tem muito mais conteúdo de séries norte americanas do que de países africanos. E se você ver os voluntários que estão escrevendo a Wikipedia, você tem geralmente homens brancos da Europa e dos Estados Unidos, cisgênero, de bastante privilégio que normalmente tem tempo para editar e criar os artigos. Eles são responsáveis por criar 80% do conteúdo que nós lemos”, explicou.

Ela e sua equipe, que agora é composta por 11 pessoas, iniciaram, então, um trabalho cujo objetivo é trazer as vozes e experiências de coletivos marginalizados para a internet.

Apoiada pela própria Fundação Wikimedia, diversos projetos ganharam corpo ao longo dos anos, como o feito com os povos indígenas Kumeyaay e Shoshone dos EUA.

Segundo Adele, algumas pessoas dessas comunidades foram procurar na internet sobre o processo de busca do ouro e de colonização da Califórnia e, no artigo da Wikipedia que falava sobre isso, a narrativa que encontraram era de que os indígenas foram ou violentos ou que aceitaram a destruição de seus territórios.

“Então eles lendo aquilo falaram ‘Essa não é a verdade, não é assim que aconteceu, na verdade nós resistimos muito, como a gente faz para mudar isso? Como a gente faz para que a história não seja contada pelos vencedores?’. E aí nós trabalhamos para mudar esse artigo e escrever a partir da perspectiva indígena como eles resistiram à colonização”, contou.

Vozes a outros grupos

De acordo com Adele, os coletivos podem buscar a ONG e falar como gostariam de trabalhar para mudar alguma narrativa online. A partir disso, as equipes também buscam conversar com empresas de tecnologia e de produção de conteúdo online para que elas entendam que existe essa demanda e iniciem uma mudança das próprias políticas editoriais.

“Essas comunidades marginalizadas tem um vasto conhecimento. A questão é saber como fazer para inserir essas informações, de maneira acessível e que corrija esses relatos históricos que apagaram completamente a história desses coletivos”, disse.

Campanha de visibilidade para mulheres na Wikipedia, relatórios sobre diversidade linguística na internet e mudanças de conteúdo em espaços físicos, como em bibliotecas e museus, são alguns outros projetos que a ONG trabalha.

“Eu estar aqui hoje, ter escolhido esse trabalho, com certeza não teria acontecido sem a contribuição e o papel da Unesp na minha vida, por conta de tudo que eu aprendi lá e também fora dos muros, porque a universidade se faz não só com ensino, mas também com a questão da pesquisa e da extensão. Eu sempre vou ser defensora da universidade pública, de qualidade, laica e gratuita. E espero que em um futuro existam muitas Adeles por aí”.

Adele no evento WikiWomenCamp, em 2017, no México, representando a 'Whos Knowledge?' — Foto: Blossom Ozurumba/Wikimedia Commons

Adele no evento WikiWomenCamp, em 2017, no México, representando a ‘Whos Knowledge?’ — Foto: Blossom Ozurumba/Wikimedia Commons

REPRODUÇÃO/g1 Ribeirão Preto

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